Já li muitos posts (ótimos por sinal) sobre mitos, verdades e fatos sobre clientes da área de Design. Eles são nossa razão de viver ($$$), mas também são a razão de muitas vezes termos um incontrolável desejo de pular do 20o. andar.
Chegou a hora de eu mesmo escrever meus 15 chavões ditos por estes amáveis e incompreendidos organismos, baseados, óbvio e infelizmente, em fatos reais. O foco será para jobs web, mas servem para qualquer produto de Design.
1 - “Quanto você cobra para fazer um site?”
Ah, a primeira e mais clássica pergunta que ouvimos quando um cliente nos liga (e sabe lá deus como conseguiu nosso celular). Clientes acham que somos igual supermercado: é só escolher o produto, ver o preo, pagar e tá levando. Claro que nenhum deles levam em conta que cada produto é um produto distinto, e que só depois de reuniões para desvendarmos suas mentes obscuras é que saberemos o que querem (com uma margem de erro de 70%), e poderemos passar o valor do job.
2 - “Quero um site moderno, contemporâneo, despojado, com movimento mas bem simples.”
O cliente é um organismo de mente contraditória e indecisa. Mas isso é um truque sagaz para testar nossa capacidade de interpretação.
3 - “Quero um site moderno, bem Web 2.0!”
Esse é o clichê 2 reloaded. Provavelmente ele leu o termo Web 2.0 na Revista Veja, viu que o cool da Internet é ser assim, e acha que o site dele tem que ser isso.
4 - “Mas não tem como chutar o preço? É um site bem simplezinho, ele vai ser assim: [tentativa em vão de descrever o projeto inteiro]“
Ele realmente não acredita que é necessário tempo e estudo pra que possamos desvendar sua mente, e realmente acredita que na nossa tabela FIP de projetos tem a classificação “simples” por R$600,00.
5 - “Olha, eu queria mais ou menos igual esse: (e passa dezenas de links)”
Em um esforço final, o cliente tentar passar exemplos de como ele quer seu produto. Todos sabemos que isso não faz a mínima diferença, pois cada job é um job, e não é porque ele gosta do site da Microsoft que você necessariamente fará um igual.
6 - “Mas precisa pagar só pra você me fazer uns rascunhos?”
Porque dedicaríamos tempo precioso pesquisando e fazendo roughs sendo que: 1 - Tempo é dinheiro; 2 - O cara vai querer ficar mudando o rascunho, e o projeto nunca vai sair dessa fase; 3 - Ele pode simplesmente pegar o rough e dar na mão do sobrinho pra copiar, e não fechar conosco. Se o cliente é profissional, ele sabe que fazer roughs também é trabalhar, e por isso devemos ser devidamente valorizado. E se o cara pagar, é porque tem pretenção de fechar anyway, senão é dinheiro jogado fora.
7 - “Então, eu queria um formulariozinho de contato que cadastrasse o cliente pra eu poder mandar email pra ele depois, e fazer um sisteminha pra poder vender meus produtos também…”
Nessa etapa, o site “simples” já virou um sistema que necessita de programação e banco de dados. E todos sabemos que isso requer $$$, o que nos leva ao chavão 8:
8 - “Mas tudo isso??? Pô, meu [insira amigo ou familiar] falou que conhece um cara que faz por R$300,00!!!!”
Ahhhh, a pior parte. Depois que você analisou que o custo para layoutar todas as telas, fazer a maldita animação de introdução em Flash, comprar as fontes, tirar e tratar as fotos, montar os HTMLs, CSSs e JSs, estruturar o banco de dados, fazer o sistema de cadastro e busca, fazer o sistema de emails e desenvolver o e-commerce saiu R$8000,00 (estou simplesmente atribuindo uma grandeza simbólica aqui), o cliente cai da cadeira. A verba que ele tinha reservado era de R$800,00, até R$1000,00 se fosse necessário, afinal, tocar negócio na Internet é barato, fazer site é fácil. Nessa hora, tentamos explicar e justificar todo o orçamento do projeto. Se ainda assim ele insistir no cara de R$300,00, aqui vai meu conselho final: “Então faça com esse cara”. E o pior, o cliente vai fazer mesmo, vai sair uma porcaria, mas vai ficar satisfeito por ter “economizado”.
9 - “Tem como fazer por menos? Estamos prestes a lançar um grande negócio/fazer uma turnê/lançar um videoclipe, e esse site vai ser um ótimo portfolio pra você! Assim que a gente receber o primeiro pagamento nós lhe pagamos!”
Para mim, existem 5 níveis de aplicação de capital: baixo risco, médio risco, alto risco, altíssimo risco, e topar com a proposta acima. A desculpa do portfolio é clássica. E pior ainda: se você faz um site por R$300,00 só pelo portfolio, outros clientes exigirão o mesmo preço. Seu trabalho desvaloriza, e o trabalho da categoria inteira de Design desvaloriza. Ou faz pelo preço justo, ou faz de graça. Trabalhar por pouco é frustrante, estressa, não dá motivação e o resultado, conseqüentemente, sai péssimo.
10 - “Não dava pra deixar isso mais vivo? Tem muito espaço em branco… E se colocássemos mais cor?”
Não importa o quão esforçada seja nossa tentativa de criar espaçamentos para aumentar a legibilidade do texto, o quanto pesquisemos em termos de Teoria da Cor para escolher uma paleta harmônica e equilibrada… O cliente sempre vai querer enfiar informação onde der, e pintar de vermelho o que for mais importante.
11 - “A logomarca tá muito pequena, não dá pra aumentar mais?”
Já começou errado porque logomarca, no Design, é um termo incorreto. E claro, a marca deve ocupar o máximo de espaço, se possível invadindo a área de não-interferência determinada pelo manual de identidade visual. Isso se houver um, claro. É com estratégias desse tipo que marcas como a Apple fazem sucesso, claaaaro. Clientes adoram seus Macs, iPods e iPhones, mas querem que seus produtos pareçam um Windows XP.
12 - “Acho que o visitante não vai enxergar isso aqui, e se a gente colocasse em um box vermelho com letras maiores?”
Ah, o caminho Microsoft de ser: se o usuário possivelmente não vai ver, vamos esfregar na cara dele! Bullshit, o usuário escolhe o que quer e o que não quer ver. E para mais informações, vide clichês 10 e 11.
13 - “Bom, vou mandar todo o material gráfico que você precisa o quanto antes.”
Pura ilusão. Provavelmente o cliente irá demorar uma semana para entregar o material. Quando o fizer, vai ser por email, a marca estará em gif de fundo branco, as fotos em 120px por 100px, ou pior, ele vai mandar uma apresentação de Powerpoint e vai mandar retirar tudo de lá.
14 - “Vamos fazer um “marketing viral” no YouTube pra divulgar nossa idéia.”
Se clientes são organismos imprevisíveis, não vejo nada de estranho na vontade deles de espalhar vírus por aí. Só acho estranho que o nome do vírus seja Marketing. Viral não é causa, motivo, razão ou circunstância - o efeito viral é a conseqüência de uma boa campanha.
E pra finalizar…
15 - “Está tudo ótimo, vamos marcar uma reunião para eu mostrar para os outros sócios.”
Depois que todo o trabalho está feito, retocado, pronto para publicação, o cliente precisa usar seu último (e mais poderoso) artifício para corromper a mente e a alma do designer. Repentinamente, seu trabalho de meses será avaliado por pessoas que não sabem de nada do projeto e não acompanharam nenhuma das decisões tomadas e suas justificativas. Obviamente, vão discordar em cada ponto possível e o projeto voltará quase à estaca zero. No pior dos casos, um desses sócios possuirá o poder majoritário da empresa, e mandará o projeto inteiro ser cancelado. É nessas horas que você dá graças por ter um contrato assinado com cláusula de multa. Você… tem um contrato… não ?
Clientes são organismos realmente incompreensíveis e sádicos. É necessário que tenhamos sempre estratégias e artifícios para combater cada um dos clichês e impedi-los de corroerem nossas almas. Em último caso, caso nada disso possa ser evitado… sorria, você não está só! =)